Há corridas que ficam na memória pelo tempo alcançado. Outras pelo percurso, pelo ambiente ou pela organização. E depois há aquelas que nos desafiam verdadeiramente pelas condições em que são disputadas. Foi exatamente isso que senti no XLIV Grande Prémio de Atletismo, integrado na Feira de São João, em Évora.

Ainda antes de chegar já dava para perceber que esta não ia ser uma corrida igual às outras.

Por volta das 19 horas, enquanto seguia em direção a Évora, o termómetro do carro marcava cerca de 37 graus. No entanto, à medida que me aproximava da cidade, a temperatura continuou a subir. Cerca de uma hora depois já marcava 39 graus. Foi impossível não reparar na diferença. Assim que saí do carro senti imediatamente aquele vento quente e seco, típico do interior alentejano, que parecia envolver tudo à volta.

Sabia que o calor ia ser um dos principais adversários da noite.

Um percurso bonito… e exigente

A partida e a chegada aconteceram junto ao Complexo Desportivo de Évora, num percurso que passou pela zona do Aqueduto e percorreu várias ruas junto às muralhas da cidade.

Apesar da hora tardia, havia bastante público ao longo do percurso, algo que ajuda sempre nos momentos mais difíceis. Correr entre as muralhas históricas, sobre a calçada típica alentejana e com o ambiente da Feira de São João como pano de fundo acaba por dar um carácter muito especial à prova.

O percurso não era totalmente plano. Existiam algumas subidas que, com temperaturas próximas dos 40 graus, se faziam sentir bem nas pernas. Felizmente também havia descidas onde era possível recuperar algum ritmo e aproveitar para ganhar alguns segundos.

Correr com quase 40 graus

Não é habitual treinar nestas condições. Apesar de viver no Alentejo e de estar habituado ao calor, normalmente evito fazer treinos intensos quando as temperaturas são tão elevadas.

Curiosamente, esta corrida fez-me lembrar um dos treinos que realizei em Miami. A grande diferença é que, nos Estados Unidos, o principal desafio era a humidade extremamente elevada. Em Évora o calor era diferente: mais seco, mais abrasador e com um vento quente constante que aumentava ainda mais a sensação térmica.

É um tipo de esforço completamente diferente e que obriga a gerir muito bem o ritmo desde os primeiros quilómetros.

A estratégia durante a corrida

O objetivo era simples: terminar abaixo dos 40 minutos.

Comecei de forma controlada, procurando encontrar um ritmo que fosse sustentável durante toda a prova. Sabia que, se exagerasse nos primeiros quilómetros, o calor acabaria por cobrar essa fatura mais à frente.

E foi precisamente entre os quilómetros 5 e 8 que senti o momento mais difícil da corrida. O desgaste acumulado, o calor e a altimetria fizeram dessa fase a mais exigente da noite.

Já nos quilómetros finais, aproveitando algumas zonas de descida e a proximidade da meta, consegui voltar a acelerar e recuperar algum tempo.

No final, consegui cumprir o objetivo.

Cruzei a meta em menos de 40 minutos, alcancei o 3.º lugar no escalão M40 e terminei na 21.ª posição da classificação geral, um resultado que me deixou bastante satisfeito tendo em conta as condições em que a prova foi disputada.

Uma organização que merece destaque

A organização esteve muito bem conseguida.

Todo o percurso estava devidamente sinalizado, havia apoio sempre que necessário e, no final, não faltou hidratação para os atletas.

Além da água, todos receberam fruta, barritas de chocolate e ainda senhas que davam direito a uma ou duas bifanas e uma bebida, um pormenor simples, mas que acaba sempre por criar um ambiente de convívio muito agradável depois da corrida.

Vale a pena voltar?

Sem dúvida. Já tinha corrido anteriormente a Meia Maratona de Évora, mas esta prova mostrou-me uma perspetiva diferente da cidade. O percurso, o ambiente criado pela Feira de São João e a boa organização fazem deste Grande Prémio uma corrida que merece fazer parte do calendário de quem gosta de competir no Alentejo.

Sei que, entretanto, estão previstas algumas alterações ao percurso da meia maratona e, depois desta experiência, fiquei com vontade de voltar para descobrir essa nova versão.

Há corridas que recordamos pelos tempos. Outras pelas medalhas.

Esta vou recordar, sobretudo, pelo calor intenso, pela superação e pela sensação de cruzar a meta sabendo que, mesmo com quase 40 graus, consegui atingir o objetivo a que me tinha proposto.